segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O primeiro conto foi 8.o Lugar Nacional do Concurso de Contos Maximiano Campos, PE, 2012, e inicia uma jornada de um projeto meu de uma coletânea de contos da Cidade de Moreno.


DILÚVIO VERMELHO (C)

O céu não parece amistoso. A cor cinza só é comum às nuvens nos dias em que cai chuva, e é por isso observarem que todos os moradores de Moreno estão dentro de suas casas, enclausurados como que postos à espera de um imenso temporal. Cairá em breve, isso é certo; como dois e dois são quatro, como três e três são seis e como as regras empíricas de aritmética da natureza, que conhecem os Morenos habitantes por assim viverem de observar. Sabem, de ouvir dizer, que não se pode soprar três vezes em direção à colina leste, porque é de maus agouros, e o último homem que assim o fez, sumiu sem dar vestígios. Sabem, também, que não se podem molhar em banho de rio quando ele corre em rodamoinhos; é que outro homem se banhou no rio em dadas condições e foi visto levado por insólito fenômeno. Sabem, por fim, que quando chove, é bom que se ponham casa adentro; primeiro porque chuva molha e é causa-enfermo, segundo porque sabem, ninguém viu, que uma mulher, que ficou demasiado na chuva, veio a esfarelar-se em água e dissolver-se em terra: nem enterro deu-se porque corpo nem encontrado foi.  Quando chove, os amorados de Moreno protegem-se por detrás das amuradas e ficam por ver as gotas, de suas janelas de casas simples, baterem no chão, ora como pedregulhos líquidos, ora como finas cascatas de fios d’água que, pela pouca intensidade de agressão aos anteparos, parecem vir a suavizar o solo para futuras colheitas. É bucólica a Moreno de simples vigiantes. Forasteiros são poucos e vêm de tempos em tempos. Quando muito um primo distante, ou um filho que foi ter longe pra nunca voltar e deixou a mãe a ver chuviscos, às cartas que chegam e despacham quinzenalmente na única agência de correios. Sabe-se o nome de todos os moradores de Moreno com precisão cirúrgica: sobrenome, sobrenomes, se mais de um houver. E, em Moreno, sabe-se mais por ouvir dizer do que por ver com olhos próprios; tanto que é ditado popular na cidade que quem inventa Moreno são os olhos que ouvem. Sabe-se de cor que na casa de número trinta e três vive a beata Juraci Jurada, que jurou de pés juntos ter visto um santo brotar de seus pés e dizer-lhe a si que deveria pregar palavra até o fim da vida. Sabe-se de Dona Bárbara Barbante que é tecelã e tece os costumes indumentários de Moreno que uma vez teceu um véu de noiva que cobriu a dita cuja e nunca mais lhe pode ver o rosto; de Seu Bastião Botina, que bota as ordens nos calçados e os conserta, ainda que haja tão pouco e seja gente simples, descalça, aquele povo de Moreno, que um dia fez bota tão grande e tão imensa, que veio-se um gigante a vesti-la e saiu correndo, formando, adiante, uma grande depressão em forma de pé. Sabe-se do Padre Pedro, petrificada figura, que ordena os meninos de Moreno e que lhes quer fazer seus substitutos para perpetuar a fé na cidade, pois, dizem, quando for-se a fé de Moreno, irá Moreno para o túmulo. São causos que contam afora e em que creem os habitantes. Sabe-se de Paulino Padeiro, parteiro dos pães da cidade, quentinhos à espera na fila matinal, que um dia fez tanto pão que teve de jogar metade fora e que, no dia seguinte, haviam virado pedras que formaram as ruínas ao Oeste. A cidade é um mesmo todo dia; vai dia, vem, volta, meia-volta. Contam fatos que a cidade é intacta e que tudo se repete e nada acontece que não pelos olhos e pela imaginação do povo. Ainda não choveu em Moreno. O temporal está por vir n’alguns minutos e foi a beata Juraci Jurada que viu cair a primeira gota de chuva no pavimento. E o que viram os olhos santos de Dona Juraci Jurada foi uma gota enorme emplastrar-se ao chão e dele fazer parte, empoçando-se numa pequena e esparsa bacia de líquido vermelho. Dona Juraci persignou-se três vezes, arreda cruz credo!, sem entender que poderia significar a cor da chuva e esperando tratar-se, por fim, de miragem dos olhos. Mas outra gota caiu e mais outra. E, agora não se poderia duvidar: a chuva era vermelha feito sangue, cheirava feito sangue, coagulava sangue feito. E esfregava, a beata, as mãos aos olhos, para corrigir as vistas. Mas era mesmo que nada porque era mesmo sangue. E todos puseram os olhos janela afora e todos viram o temporal avermelhado com seus próprios olhos que, daquela vez, não ouviam. E a cidade alagou-se; foi diluviando em borbotões rubros, jatos intempestivos de água avermelhada que empapava o chão e a terra marrom de Moreno. Seus habitantes, das janelas, entreolhavam-se. Os olhos da beata Juraci Jurada viam os de Seu Bastião Botina, que meteu seus filhos adentro e não lhes pôs a ver a ocorrência. Os olhos de Padre Pedro decidiram não cegar e fizeram rezar seu terço pelos fins dos tempos de Moreno, que para ele era o mundo inteiro, e pôs a orar os meninos seus protegidos. Juca Caduca, o ancião de Moreno, que sabia quase tudo quanto sabia o próprio deus, verificou que não sabia de que aquilo se tratava e, por isso, mandou sua esposa, Jurema Serena, trazer-lhe seu livro de memórias cruas para registro fiel do que viam os olhos. Naquele dia em que choveu sangue na cidade de Moreno, os moradores, todos, constataram de olhares verídicos que coisa boa não podia estar acontecendo. No dia seguinte ao dilúvio de sangue, os moradores, em silêncio, reuniram força-tarefa, muxirões de gente para limpar toda a placa de coágulos que se fez nos muros, nas calçadas, na terra, nas árvores, nas plantações rasteiras. Sobre o fato não se pronunciou palavra. Limparam, espartanos, todo e qualquer vestígio de um temporal de sangue. Dito Feito, homem bruto e trabalhador de Moreno, acostumado aos penosos serviços da enxada, embora assustado e na iminência de fala, não conseguiu quebrar o sepulcroso silenciamento. Que gostasse de falar era certo, mas Moreno só parecia falar do que os olhos não viam e escutavam. E foi um dia inteiro para varrer o derramamento de sangue das ruas, das casas, da igrejinha de Padre Pedro, que era bem comum a todos. E nunca mais ninguém falou em temporal de sangue em Moreno, porque, é bem sabido de Juca Caduca, Moreno é fruto do que os olhos ouvem, não do que veem.
Olá, leitores,

Meu nome é Marcelo Ribeiro, tenho 30 anos e sou professor de Matemática. Neste blog, eu pretendo divulgar parte do meu trabalho como contista. Em sua grande maioria, textos já publicados em alguma coletânea. O intuito é dar certa visibilidade aos meu escritos e que o laço de comunicação entre leitor/autor se estreite.

Espero que se divirtam e que achem belo o que aqui está.
Cordialmente,