O primeiro conto foi 8.o Lugar Nacional do Concurso de Contos Maximiano Campos, PE, 2012, e inicia uma jornada de um projeto meu de uma coletânea de contos da Cidade de Moreno.
DILÚVIO VERMELHO (C)
O céu não parece amistoso. A cor cinza só é comum às
nuvens nos dias em que cai chuva, e é por isso observarem que todos os
moradores de Moreno estão dentro de suas casas, enclausurados como que postos à
espera de um imenso temporal. Cairá em breve, isso é certo; como dois e dois
são quatro, como três e três são seis e como as regras empíricas de aritmética
da natureza, que conhecem os Morenos habitantes por assim viverem de observar.
Sabem, de ouvir dizer, que não se pode soprar três vezes em direção à colina
leste, porque é de maus agouros, e o último homem que assim o fez, sumiu sem
dar vestígios. Sabem, também, que não se podem molhar em banho de rio quando
ele corre em rodamoinhos; é que outro homem se banhou no rio em dadas condições
e foi visto levado por insólito fenômeno. Sabem, por fim, que quando chove, é
bom que se ponham casa adentro; primeiro porque chuva molha e é causa-enfermo,
segundo porque sabem, ninguém viu, que uma mulher, que ficou demasiado na
chuva, veio a esfarelar-se em água e dissolver-se em terra: nem enterro deu-se
porque corpo nem encontrado foi. Quando
chove, os amorados de Moreno protegem-se por detrás das amuradas e ficam por
ver as gotas, de suas janelas de casas simples, baterem no chão, ora como
pedregulhos líquidos, ora como finas cascatas de fios d’água que, pela pouca
intensidade de agressão aos anteparos, parecem vir a suavizar o solo para
futuras colheitas. É bucólica a Moreno de simples vigiantes. Forasteiros são
poucos e vêm de tempos em tempos. Quando muito um primo distante, ou um filho
que foi ter longe pra nunca voltar e deixou a mãe a ver chuviscos, às cartas
que chegam e despacham quinzenalmente na única agência de correios. Sabe-se o
nome de todos os moradores de Moreno com precisão cirúrgica: sobrenome, sobrenomes,
se mais de um houver. E, em Moreno, sabe-se mais por ouvir dizer do que por ver
com olhos próprios; tanto que é ditado popular na cidade que quem inventa
Moreno são os olhos que ouvem. Sabe-se de cor que na casa de número trinta e
três vive a beata Juraci Jurada, que jurou de pés juntos ter visto um santo
brotar de seus pés e dizer-lhe a si que deveria pregar palavra até o fim da
vida. Sabe-se de Dona Bárbara Barbante que é tecelã e tece os costumes
indumentários de Moreno que uma vez teceu um véu de noiva que cobriu a dita
cuja e nunca mais lhe pode ver o rosto; de Seu Bastião Botina, que bota as
ordens nos calçados e os conserta, ainda que haja tão pouco e seja gente
simples, descalça, aquele povo de Moreno, que um dia fez bota tão grande e tão
imensa, que veio-se um gigante a vesti-la e saiu correndo, formando, adiante,
uma grande depressão em forma de pé. Sabe-se do Padre Pedro, petrificada
figura, que ordena os meninos de Moreno e que lhes quer fazer seus substitutos
para perpetuar a fé na cidade, pois, dizem, quando for-se a fé de Moreno, irá
Moreno para o túmulo. São causos que contam afora e em que creem os habitantes.
Sabe-se de Paulino Padeiro, parteiro dos pães da cidade, quentinhos à espera na
fila matinal, que um dia fez tanto pão que teve de jogar metade fora e que, no
dia seguinte, haviam virado pedras que formaram as ruínas ao Oeste. A cidade é
um mesmo todo dia; vai dia, vem, volta, meia-volta. Contam fatos que a cidade é
intacta e que tudo se repete e nada acontece que não pelos olhos e pela
imaginação do povo. Ainda não choveu em Moreno. O temporal está por vir
n’alguns minutos e foi a beata Juraci Jurada que viu cair a primeira gota de
chuva no pavimento. E o que viram os olhos santos de Dona Juraci Jurada foi uma
gota enorme emplastrar-se ao chão e dele fazer parte, empoçando-se numa pequena
e esparsa bacia de líquido vermelho. Dona Juraci persignou-se três vezes,
arreda cruz credo!, sem entender que poderia significar a cor da chuva e
esperando tratar-se, por fim, de miragem dos olhos. Mas outra gota caiu e mais
outra. E, agora não se poderia duvidar: a chuva era vermelha feito sangue,
cheirava feito sangue, coagulava sangue feito. E esfregava, a beata, as mãos
aos olhos, para corrigir as vistas. Mas era mesmo que nada porque era mesmo
sangue. E todos puseram os olhos janela afora e todos viram o temporal
avermelhado com seus próprios olhos que, daquela vez, não ouviam. E a cidade
alagou-se; foi diluviando em borbotões rubros, jatos intempestivos de água
avermelhada que empapava o chão e a terra marrom de Moreno. Seus habitantes,
das janelas, entreolhavam-se. Os olhos da beata Juraci Jurada viam os de Seu
Bastião Botina, que meteu seus filhos adentro e não lhes pôs a ver a
ocorrência. Os olhos de Padre Pedro decidiram não cegar e fizeram rezar seu
terço pelos fins dos tempos de Moreno, que para ele era o mundo inteiro, e pôs
a orar os meninos seus protegidos. Juca Caduca, o ancião de Moreno, que sabia
quase tudo quanto sabia o próprio deus, verificou que não sabia de que aquilo
se tratava e, por isso, mandou sua esposa, Jurema Serena, trazer-lhe seu livro
de memórias cruas para registro fiel do que viam os olhos. Naquele dia em que choveu
sangue na cidade de Moreno, os moradores, todos, constataram de olhares
verídicos que coisa boa não podia estar acontecendo. No dia seguinte ao dilúvio
de sangue, os moradores, em silêncio, reuniram força-tarefa, muxirões de gente
para limpar toda a placa de coágulos que se fez nos muros, nas calçadas, na
terra, nas árvores, nas plantações rasteiras. Sobre o fato não se pronunciou
palavra. Limparam, espartanos, todo e qualquer vestígio de um temporal de
sangue. Dito Feito, homem bruto e trabalhador de Moreno, acostumado aos penosos
serviços da enxada, embora assustado e na iminência de fala, não conseguiu quebrar
o sepulcroso silenciamento. Que gostasse de falar era certo, mas Moreno só
parecia falar do que os olhos não viam e escutavam. E foi um dia inteiro para
varrer o derramamento de sangue das ruas, das casas, da igrejinha de Padre
Pedro, que era bem comum a todos. E nunca mais ninguém falou em temporal de
sangue em Moreno, porque, é bem sabido de Juca Caduca, Moreno é fruto do que os
olhos ouvem, não do que veem.